terça-feira, 9 de junho de 2026

Antonio de Souza Barros (Barros Preto)

 


Antonio de Souza Barros, conhecido como Barros Preto, ao residir em Rio Pardo, tomou conhecimento da existência das terras do Guandu, região então celebrada por sua beleza e fertilidade. Movido pela curiosidade e pelo potencial do lugar, dirigiu-se até a região e, impressionado com suas condições naturais, ali estabeleceu a Fazenda Santo Antônio da Boa Vista, fixando residência no ano de 1876 — propriedade que mais tarde seria conhecida como Fazenda Guandu. Tratou-se, ao que tudo indica, do primeiro estabelecimento de que se tem notícia no Alto Guandu, posteriormente passando às mãos de Francisco Tosta das Neves.

Segundo registros da época, Antonio teria falecido em 15 de abril de 1884, na localidade de Guandu de Cima, distrito de São Sebastião (atual município de Afonso Cláudio, ES), então com a impressionante idade de 134 anos. O mesmo periódico que divulgou tal informação, em nota subsequente, registrava ainda a existência de Eleutério Velho, a quem atribuía 149 anos de idade, também morador antigo do Guandu. Contudo, a veracidade dessas idades é posta em dúvida por outra fonte jornalística, que menciona a existência de certidão de nascimento de Eleutério, o que leva à suspeita de exagero nas idades divulgadas. Assim, é possível que Antonio de Souza Barros não tivesse a idade extraordinária que lhe foi atribuída pelo jornal O Espírito-Santense.

A história oficial do município de Afonso Cláudio relata que o engenheiro Frederico Wilmer, em suas expedições em busca de ouro na região do Guandu, teria encontrado o valioso metal justamente em terras pertencentes a Antonio de Souza Barros, por volta da década de 1850.

Antonio foi casado com Maria Joanna, também identificada em algumas fontes como Custódia de Jesus, com quem teve numerosa descendência: Zaquiel de Barros, Maria de Souza Barros, Euzébio de Souza Barros (casado com Elvira Gomes da Rosa), Alfredo de Souza Barros (casado com Januária Maria de Jesus), Antonio de Souza Barros (casado com Maria Fernandes), Juracy de Souza Barros, Pedro de Souza Barros e Silvino de Souza Barros.

Em sua fazenda, registrava-se a presença de trabalhadores escravizados, tanto afrodescendentes quanto indígenas. Após sua morte, a propriedade foi vendida ao fazendeiro Manoel Fernandes Moura, figura de grande influência na região.

Em 1885, Dona Maria Joanna envolveu-se em um conflito com o Sr. Moura em razão do índio Leopoldino, nascido na própria fazenda e registrado por Antonio de Souza Barros como escravo. Após a morte do marido, a viúva buscou corrigir a situação, defendendo a libertação do indígena que considerava ter sido injustamente submetido à escravidão. O caso ganhou contornos judiciais, uma vez que Manoel Moura reivindicava Leopoldino como sua propriedade (FONTES, 2014).

Leopoldino conseguiu comprovar, perante o juiz municipal de Cachoeiro de Itapemirim, as circunstâncias de seu nascimento. Ainda assim, o juiz de direito da comarca negou-lhe o mandado de manutenção de sua liberdade (FONTES, 2014), revelando as complexas contradições jurídicas e sociais daquele período.

Na mesma época, por volta da década de 1880, aparecem registros de outros indivíduos com o sobrenome Souza Barros em Afonso Cláudio, possivelmente ligados à família de Barros Preto. Entre eles, destaca-se Joaquim de Souza Barros, que em 1883 assinou um documento em defesa de acusados de um homicídio envolvendo Jorge Guilherme Gomes, e Januário de Souza Barros, que em 1886 foi acusado de assassinar, “a facadas, o indivíduo José Innocêncio Seraphim, o qual evadiu-se após o assassinato” (FONTES, 2014).


Referências

"Brasil Batismos, 1688-1935", database, FamilySearch (https://familysearch.org/ark:/61903/1:1:XV7K-XXZ : 14 February 2020), Antonio Jose de Barros in entry for Zaquiel Barros, 1861.

FONTES, Adilson Braga. Notícias de Afonso Cláudio: a história de Afonso Cláudio contada pelos jornais: 1881-1949. Campinas: Abrafo, 2014.

O Espírito-Santense. Vitória, 26 maio 1886, ano XVI, n. 42.


segunda-feira, 8 de junho de 2026

Joaquim José de Almeida

Por Adilson Braga Fontes


Joaquim José de Almeida estabeleceu-se no atual município de Afonso Cláudio antes de 1881, fato que pode ser comprovado pela seguinte nota publicada em jornal da época:

Em São José do Rio do Peixe (Guandu de Cima), de propriedade do Sr. Joaquim José de Almeida, faleceu no dia 26 de março de 1881 um escravo do referido senhor, de nome Domingos, de 18 anos, vítima de um tiro dado casualmente por seu senhor moço Calixto, durante uma caçada de veado. O informante diz-nos que esse moço quase endoideceu, porque os dois eram verdadeiros amigos (O CACHOEIRANO, 1881, p. 3).

Nesse mesmo ano de 1881, Joaquim José adquiriu as referidas terras da Fazenda Nacional, localizadas no já mencionado Rio do Peixe, abrangendo cerca de 16 milhões de metros quadrados (FONTES, 2014, p. 247).

Em 1884, sua propriedade destacava-se como uma das grandes produtoras de fumo de boa qualidade da região, alcançando naquele ano uma produção aproximada de 12 mil quilos do produto (FONTES, 2014, p. 25).

Joaquim José de Almeida nasceu por volta de 1846, no estado de Minas Gerais. Foi casado em primeiras núpcias com Francisca Valentina da Silva, falecida em 1888, e, em segundas núpcias, com Luiza Sebastiana Gomes, viúva do lendário Jorge Guilherme Gomes, personagem também abordado neste blog.

Era padrasto do também lendário Augusto Escopelli Gomes.

Joaquim teve diversos filhos. Entretanto, este autor não pôde determinar com segurança quais deles eram filhos de Luiza Sebastiana Gomes e quais eram provenientes do primeiro casamento com Francisca Valentina da Silva. São eles: José Cláudio de Almeida (hipoteticamente filho de Joaquim e Luiza), Francisca de Almeida (casada com Laurindo José da Fonseca Lannes), Maria Francisca da Assumpção (casada com Paulino Martins Vianna), Anna Francisca de Almeida (casada com Manoel Cardoso de Mattos), Victória de Almeida (casada com José Basílio de Souza), Magdalena Almeida (casada com Joaquim Machado Braga, tio-bisavô do autor deste blog), Joaquim Luiz de Almeida, Domingos Justino (Gustavo) de Almeida, Calixto Pereira de Almeida (o mesmo que acidentalmente matou o escravo de seu pai), Clemente Dutra de Almeida, João Batista de Almeida (filho da primeira esposa) e Joanna de Almeida (casada com Sátyro José de Souza) (FONTES, 2014, p. 162).

A árvore genealógica da família encontra-se disponível no FamilySearch.

Joaquim foi relacionado como agricultor estabelecido em Afonso Cláudio no ano de 1889 (SILVEIRA, 1889).

Esteve presente à solenidade de instalação da Villa Affonso Cláudio, realizada em 20 de janeiro de 1891. Em 1892, concorreu ao cargo de Juiz Distrital da Vila de Afonso Cláudio, obtendo 30 votos, sem lograr êxito na eleição. Em 1893, possuía duas casas alugadas na vila, uma pelo valor de 4$000 e outra por 9$000 (quatro mil e nove mil réis, respectivamente). Também atuava como negociante de 4ª classe e era proprietário de uma pequena fábrica de aguardente no município. Seu nome figurou ainda no alistamento eleitoral da Vila de Afonso Cláudio em 1894 (VIEIRA, 2009).

Com a fundação do Progressista Club de Afonso Cláudio, em 1890, Joaquim José foi nomeado tesoureiro da agremiação, então liderada por Ramiro de Barros (FONTES, 2014, p. 47).

Em 1895, recebeu a patente de capitão-ajudante do 36º Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional da Comarca do Guandu (BRASIL, 1895, p. 7).

Joaquim José de Almeida faleceu por volta de 1911, em Afonso Cláudio.


Referências:

O Cachoeirano. Cachoeiro de Itapemirim, 31 jul. 1909, ano XXXII.

FONTES, Adilson Braga. Notícias de Afonso Cláudio: a história de Afonso Cláudio contada pelos jornais: 1881-1949. Campinas: Abrafo, 2014.

SILVEIRA, Godofredo da. Almanak administrativo, mercantil, industrial e agrícola da província do Espírito Santo. Vitória: [s.n], 1889.

VIEIRA, José Eugênio. Afonso Cláudio: cronologia de sua história política, administrativa e cultural. Vitória, 2009.

BRASIL. Diário Oficial da União. Seção 1. Rio de Janeiro, 10 de julho de 1895.


sexta-feira, 27 de março de 2020

Coronel Bimbim


Origem e família – Alto Capim
Secundino Cypriano da Silva nasceu em 1895, no distrito de Alto Capim, Aimorés, MG, denominado anteriormente de São Sebastião do Alto Capim, mas também conhecido como “Barra Alegre”. Faleceu no dia 18 de abril de 1964, de ataque cardíaco, foi sepultado no Alto Capim, “num sepultamento que reuniu mais de cinco mil pessoas, entre jagunços, deserdados da sorte e companheiros de crimes”.
Nasceram também nesse distrito, o líder petista Perly Cypriano (sobrinho-neto de Bimbim e o deputado estadual capixaba, Cláudio Vereza. Mas não tem só esse tipo de gente lá não, tem gente boa também, minha mãe e os meus avós nasceram em Alto Capim e conviveram com alguma proximidade com a família do Bimbim e seus jagunços.
De modo mais abrangente, Aimorés é o berço outros bom e famosos cidadãos. Sebastião Salgado, talvez o maior fotógrafo brasileiro, reconhecido em todo o mundo, aliás, conhecido muito mais lá fora do que aqui, também nasceu no município, num distrito ao lado de Alto Capim, seu pai foi contemporâneo de Bimbim e tiveram algum grau de convivência; o cantor Altemar Dutra é um filho de Aimorés, grande cantor de boleros, reconhecido em toda a América Latina, morreu precocemente, aos 43 anos, e outros tantos.
Bimbim era filho de Secundino Cipriano da Silva, tinha o mesmo nome que o pai, sua esposa era Dona Luiza, eram pais de Severina Cipriano. A irmã de Bimbim, Derminda Cypriano, era casada com José Gonçalves do Nascimento, filho do fazendeiro influente de Afonso Cláudio, ES, Sebastião Gonçalves do Nascimento. José e Derminda foram pais de Sebastião Gonçalves do Nascimento Neto (o Totó), sobrinho de Bimbim, que era um dos braços fortes do tio no Espírito Santo. A irmã de Totó, Dona Minta, foi professora de meu pai, ela lecionava em uma escola na fazenda da família. Meu avô tinha uma fazenda próxima a de Totó e sua família. Nas décadas em que Bimbim reinou na região, meu avô teve contato com ele e com seus jagunços, meu pai também, mas era jovem no tempo de Bimbim.
O Contestado
A explicação remonta ao período do ciclo do ouro em Minas Gerais, no século XVIII. Nesta época, a Coroa Portuguesa encontrou uma barreira natural aos que vinham do mar para explorar clandestinamente o ouro na região de Vila Rica, esta barreira era um paredão montanhoso que dificulta o acesso do litoral capixaba ao interior do estado e, por consequência ao estado vizinho, Minas Gerais. Esta cadeia montanhosa é a Serra do Mar capixaba.
A zona do vale do rio Doce, leste mineiro e oeste capixaba, desde o começo da colonização, é palco de embates. Assim que os primeiros colonos chegaram à região inóspita e selvagem tiveram que colocar à prova a força e a disposição de lutar. A questão do litígio entre o Espírito Santo e Minas Gerais influiu de maneira desfavorável no desenvolvimento do território. Ambos os estados reivindicavam o direito sobre a área. Mas nenhum dos dois investiu no progresso efetivo dos pequenos núcleos de povoação que iam surgindo. Não havia autoridade constituída. Os colonizadores seguiam a ordem natural das coisas, e predominou a lei do mais forte. E foi realmente essa lei que deu origem a figuras como Bimbim, que fazia justiça com as próprias mãos.
Mas por que havia uma zona contestada entre Minas e Espírito Santo? Com esta barreira natural, o governo luso proibiu que o interior montanhoso do Espírito Santo fosse colonizado, deixando esta região desabitada, ou quase, ali viviam milhares de nativos, Botocudos. Do lado de Minas, os mineiros seguiram a mesma lógica, começaram a emigrar para a chamada Zona Proibida para colonizá-la, pois as terras ali eram baratas e férteis. A corrida por terras de cidadãos dos dois estados impôs aos governos a necessidade de se definir os limites dos estados, assunto até então relegado ao descaso. Daí surgiram os conflitos, chamado de Contestado.
Quando tinha 22 anos, Bimbim dá início à sina que levaria até o último dia de vida. Aos 22 anos ele atira num desafeto no Alto do Capim. Daí em diante acumulou um número incalculável de mortes em sua conta, matou até morrer, em 1964, mas não de morte matada. Acabou, de certa forma – se é que se pode registrar assim de forma tão insólita – premiado, simplesmente por ter morrido de morte natural, para frustração de uma legião de inimigos e regozijo de amigos e seguidores. O único que foi capaz de matá-lo foi o próprio coração, que enfraquecido, o levou para o túmulo aos 69 anos de idade.
A indefinição na jurisdição dos territórios fronteiriços abriu brechas para que o poder paralelo se instalasse, nascendo daí o poder dos coronéis no contestado, que “botavam ordem” na região sem lei, fazendo e executando suas próprias leis. Portanto, podemos dizer que a região contestada está na raiz da violência de Bimbim e de seus companheiros de garrucha.
O início

domingo, 12 de janeiro de 2020

Seraphim Tibúrcio da Costa


Seraphim Tibúrcio da Costa nasceu em 1856, em Jequeri, um distrito do munícipio mineiro de Ponte Nova (no meio do caminho entre Ouro Preto e Manhuaçu). Por volta do fim da década de 1870, ainda jovem, chegou ao recém-criado município de Manhuaçu, como tropeiro, mas tempos depois já exercia o cargo de cobrador de impostos da cidade.
A região para onde Seraphim se mudou era conhecida originalmente como Maygaçu, nome que na língua dos índios locais quer dizer rio grande, que aportuguesado virou Manhuaçu, que batiza o principal rio local e o município.
O sertão do Rio Manhuaçu começou a ser explorado no início do século XIX pelo desbravador Domingos Fernandes de Lana (natural de Ouro Preto, seu pai – Domingos Fernandes Barroso - foi um dos construtores da primitiva estrada real de Ouro Preto a Vitória), que estabelece com os índios puris o comércio da ipecacuanha (ipeca - planta medicinal). Lana rompe pela mata, desfazendo dificuldades, enfrentando as adversidades, improvisando passagens, abrindo trilhas que mais tarde se transformariam em caminhos permanentes para os mais diversos pontos.
Após alguns anos, chegam ao lugar, representando o governo provincial, o Guarda-Mor Luiz Nunes de Carvalho e o Alferes José Rodrigues de Siqueira Bueno. Constroem uma fortificação nas margens do Ribeirão de São Luiz, e organizam os primeiros estabelecimentos agrícolas. Por volta de 1843 forma-se um aldeamento de índios em terras do tal Ribeirão São Luiz.
Por este tempo surge o sertanista Antônio Dutra de Carvalho que se estabelece nas cercanias da Cachoeira da Mata, primeira propriedade de um grande latifúndio que se formaria, cujos limites se estendiam por três léguas de largura em cada margem do Manhuaçu, e por outras três léguas de fundos. Em 1846, o sertanista aluga índios junto à curadoria do aldeamento e, com esta força de trabalho, abre a primeira estrada do lugar. Os caminhos se alongam por toda a região onde cruzam gente em busca de terras e comércio.
Na ocasião, a ipeca extraída pelos índios é uma mercadoria disputada, fonte importante de renda para a localidade. A criação de suínos e os gêneros de subsistência também tem expansão nessa época. Inicia-se o cultivo de café. A região ganha novo impulso para seu desenvolvimento com a chegada de colonos suíços, alemães e franceses poucos anos depois.
Na década de 1870 a região contava com três povoamentos: o arraial de Santa Margarida, mais antigo, e as povoações de São Lourenço e de São Simão. Diante do progresso da região, o governo provincial cria, em 5 de novembro de 1877, o município do Rio Manhuaçu, destinando como sede o povoado de São Simão. É o bastante para fazer insurgir um movimento emancipacionista no arraial de São Lourenço do Manhuaçu, que reivindicava ser a sede. Organizados e reunidos em torno do Tenente-Coronel Antonio Rafael Martins de Freitas, veterano da Guerra do Paraguai, a população requer a emancipação como também introduz melhoramentos na vila, construindo um autêntico programa de obras públicas. Finalmente as autoridades estaduais se rendem à pressão e em 13 de janeiro de 1880, promulgam a lei 2.557 transferindo para a Vila de São Lourenço a sede do município de Manhuaçu. No ano seguinte lhe é concedido o foro de cidade.
Depois dessa breve introdução sobre a formação do município de Manhuaçu, voltemos à história do Seraphim Tibúrcio.
Trabalhando como coletor de impostos na cidade ele começa a ganhar dinheiro, e dessa maneira conquista a confiança dos coronéis que dominavam a cidade.
Mostrando visão empreendedora, compra a primeira máquina de limpar café da região e passa a prestar serviço a todos os cafeicultores. Foi um dos homens que ajudaram a consolidar a construção dos prédios para que a sede do município fosse transferida de São Simão (atual Simonésia) para a Vila de São Lourenço do Manhuaçu, em 1877.
Ao longo do tempo passou a diversificar suas atividades de negócios, atuando como comerciante de gêneros e comprador de café. Foi nomeado coronel da Guarda Nacional e foi delegado de polícia em Manhuaçu. Era culto, possuindo um círculo de amizades bem próximo aos grandes nomes das ideologias republicanas, como Silva Jardim e Cesário Alvim (membros do Partido Republicano).
Com prestígio e influência, em 1892, foi eleito prefeito de São Lourenço do Manhuaçu, com o apoio dos Dolabela. Em 1894, rompe a aliança com os Dolabela e tenta a reeleição e foi derrotado. Serafim Tibúrcio venceu nas urnas, com 636 votos à frente do segundo colocado, Frederico Dolabella, que foi conduzido ao poder por indicação dos coronéis rivais. Frederico Dolabella governou Manhuaçu até 1905, acompanhado do irmão, o vigário Odorico, que soube articular um quadro em que ganhava apoio, enquanto Serafim Tibúrcio perdia sustentação.
O coronel Tibúrcio ficou inconformado com a derrota, reuniu documentos, foi até à capital Ouro Preto e recorreu ao presidente da província mineira, Crispim Jaques Bias Fortes, porém, este não o apoiou na reivindicação, pois as eleições municipais eram de responsabilidade dos municípios que tinham autonomia para declarar vencedores e perdedores, tudo feito para aumentar o poder dos feudos municipais.
Depois desse revés, Tibúrcio foi obrigado a sair da cidade e se refugiar em fazendas nas proximidades de Caratinga, um município vizinho. Foi nessa espécie de exílio político que ele elaborou a estratégia de retomada do poder. Contou com a ajuda de índios e jagunços, que também haviam sido expulsos da cidade pelos coronéis, por intermédio do padre Odorico. Com o apoio do coronel João do Santos Coimbra, Tibúrcio liderou uma tropa que chegou ao município no início de maio de 1896, com um contingente de cerca de oitocentos homens e invadiu Manhuaçu. Foram dias e noites de confronto nas ruas e praças, até a proclamação da República Manhuassu,
A declaração de independência foi uma espécie de vingança contra Bias Fortes, que se negou a apoiá-lo. Com isso, o coronel declarou o município um país independente, com moeda e legislação próprias. Então, tomou o controle da região e proclamou a república independente do Brasil em 15 de maio de 1896, sete anos depois da Proclamação da República do Brasil.
 A moeda que circulava na República Manhuaçu era um vale chamado Boró, lastreado no café.
É interessante notar que a proclamação da República do Manhuaçu foi noticiada na capital federal (Rio de Janeiro) somente por um jornalista: Machado de Assis.
Segundo historiadores, em seu curto autodeclarado governo, Tibúrcio espalhou o medo em várias famílias oposicionistas, tendo ordenado invadir a fazenda de Antônio Welerson, promotor público e pessoa de bem que só não aconteceu por causa de um comparsa de Tibúrcio que avisou a tempo Welerson, tendo ele se refugiado na fazenda de seu sogro José Bazílio Nogueira da Gama.
Essa incrível declaração de independência, em um lugarejo escondido onde o Judas perdeu as botas, foi feita com um discurso proferido no coreto da praça central da cidade.
Ninguém podia entrar no território republicano sem autorização do então presidente coronel Serafim Tibúrcio, que estabeleceu como sede da República o casarão onde morava e atualmente funciona a Escola Estadual Monsenhor Gonzalez, no Centro da cidade. O estado independente que ele criou tinha aproximadamente o tamanho de Sergipe (a região de abrangência da então República do Manhuaçu é hoje ocupada por cerca de 70 municípios).
Depois de proclamada a independência, o coronel Tibúrcio avançou em direção à divisa com o estado do Espírito Santo com a política de distribuição de lotes e abertura de estradas.
Houve três tentativas frustradas do governo provincial de restabelecer a ordem política em Manhuaçu. Em todas os policiais foram mortos a tiros pelos jagunços e os índios puris e botocudos a serviço do coronel. Serafim Tibúrcio só foi deposto depois da interferência do Exército, que, a pedido de Bias Fortes, mandou a Manhuaçu 380 homens armados com carabinas, revólveres e canhões para enfrentar os aliados do coronel.
A República Manhuassu (na época se escrevia com dois esses) durou apenas 22 dias. A batalha pela retomada de Manhuaçu só terminou depois de 20 dias de combate, em 15 de junho daquele ano.
Deposto pelo Exército, depois de 22 dias de República, Serafim Tibúrcio fugiu com aliados para a cidade de Afonso Cláudio, no Espírito Santo, divisa com Mina Gerais. Neste estado adquiriu/ganhou fazendas e gado, o que, para o professor e historiador Flávio Mateus, reforça a tese de que ele havia deixado Manhuaçu depois de um acordo com o governo. Residia na fazenda Aurora da Barra.
De 1908 a 1916 ocupou o cargo de governador municipal (equivalente a vereador). Nesse período também foi vice-presidente da governadoria municipal de Afonso Cláudio (câmara de vereadores) e foi presidente do governo municipal (prefeito).
Os anos vividos em Afonso Cláudio renderam ao coronel Tibúrcio alguns aliados e inimigos. No ano de 1916, quando era o presidente da câmara dos vereadores da cidade e na esteira da Revolta do Xandoca, encontrou a oportunidade de se vingar de alguns de seus novos inimigos, foi um dos protagonistas de ataques desferidos a Afonso Cláudio, ao lado de Antonio Martinho Barbosa e Eduardo Olympio dos Santos, seus fiéis aliados, em resposta à derrota nas últimas eleições municipais. Na verdade, o ataque foi endereçado aos líderes opositores e a seus aliados que tinham sua moradia e base em Afonso Cláudio, representados pelos coronéis José Cupertino Figueira Leite e José Giestas, deputado estadual e prefeito eleito, respectivamente. O confronto foi violento e ocorreram várias baixas. Após o frustrado ataque a Afonso Cláudio, pois a população resistiu bravamente sendo auxiliada por uma guarnição militar vinda da capital, Seraphim e seus companheiros se refugiaram em Minas Gerais, MG, de onde não mais retornaram.
Serafim Tibúrcio da Costa faleceu em Espera Feliz, MG, três anos depois de ter sido expulso de Afonso Cláudio, sendo enterrado em Manhuaçu em 19 de novembro de 1919.
Fontes:




sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Amylton Dias de Almeida


Por Adilson Braga Fontes


Amylton era filho de Átila Dias de Almeida e Yracy Neto Prudêncio, foi criado pelo avô paterno em Vitoria, pois sua mãe o abandonara aos dois anos de idade. Nasceu em Afonso Cláudio, em 21 de março de 1946, e faleceu em Vitória, em 11 de outubro de 1995.
Sua carreira teve início aos 17 anos, quando em 1963 foi para o Rio de Janeiro, onde teve os primeiros contatos com o mundo artístico. Retornando ao Espírito Santo, trabalhou na redação dos principais jornais da capital. A partir da metade da década de 1970 iniciou suas atividades na televisão e no cinema.
Era um ativista cultural e atuou como jornalista, escritor, dramaturgo, documentarista, trabalhou na televisão, crítico de cinema, cineasta, romancista e videomaker. No decorrer das décadas de 1960, 1970 e 1980 participou do cenário artístico-cultural capixaba tendo integrado, por dois mandatos, o Conselho Estadual de Cultura do Espírito Santo. 
Costumava assinar seus textos como "A.A.".
Destacou-se pela excelência crítica cinematográfica, publicada durante vinte e três anos no Caderno Dois, do Jornal A Gazeta. Revelou-se um intelectual combativo, engajando-se em diversas causas. Dono de um estilo personalíssimo, irônico e mordaz, Amylton de Almeida estruturou um acervo audiovisual que revela diversas peculiaridades sobre o Estado. Libertário, independente, criativo, ousado e irreverente, Almeida revelou talentos na literatura, na música e na produção audiovisual capixaba. Recebeu premiações por seu trabalho em todo país.
Entre suas obras, destacam-se os romances: Passagem do século (1977), Blissful agony (1988) e Autobiografia de Hermínia Maria (1994); biografia: Carlos Lindeberg: um estadista e seu tempo (2010 - póstuma); as peças teatrais: As noites das longas facas, Segunda parte e a comédia Tem xiririca na bixanxa, com autoria de Milson Henriques e colaboração de Marcos Alencar. Deixou inédita a peça Respire fundo. Prenda o ar. Solte. Seu vídeo mais conhecido é Lugar de toda pobreza (1983). Ao falecer, deixou pronto, como diretor e roteirista, o filme O amor está no ar, de 1995, o primeiro longa-metragem do Espírito Santo. 
A seguir, um pouco de sua obra:
"Este é o instante em que Vitória perde todas as suas características. Observe o menino de lábios abertos. Este é o instante em que o ramo de flores cai aos pés, enquanto a lua continua se movendo e o vento espalha o cheiro de manacá pela cidade. Este é o instante em que a Praça Costa Pereira se encontra deserta para sempre. Longe, muito longe daqui o vento sopra. Este é o instante em que chove. Observe. Este é o instante em que o menino, de cabeça levemente tendendo para o lado do ombro direito, de olhos fundos e secos, tenta sorrir. Observe o olhar. Este é o instante em que se encaram. Este é o instante em que o vento abre as portas e as janelas da casa e bate a pitangueira de encontro ao portão. Observe. Este é o instante de madrugada para sempre." (Blissful agony, p. 63)

* * *

"Por opção ou por condescendência, ele era amplo; a vida o atingia em milhares de detalhes; não escolhia, discernia aceitava tudo, desde que, juntando-se, esses detalhes o impelissem para alguma coisa muito forte que fizesse sentido. Nunca fazia: ele não cabia no mundo. Porque — sabia-o — possuía uma força desconhecida que não poderia nunca ser exposta através de palavras ou explicada através de imagens. Alguma coisa que o sustentava sob duas pernas. Claro, era atingido também por algumas premonições sobre o futuro. Começava sempre com a sensação de que já vivera tudo isso. Em seguida, erguendo a cabeça, para olhar estrelas, atingindo uma tristeza tão grande que adivinhava o pânico sugerido pela densidade do que acontecia agora." (A passagem do século, p. 76)

* * *

"Eles não tinham qualquer tendência à disciplina. Eram simplesmente duas pessoas influenciadas pelo reino fantástico da desordem. Em dias de chuva e vento frio, permaneciam horas, sentados na cama, ouvindo discos, lendo, ouvindo a chuva batendo na janela, o vento levantando as cortinas, pensando sobre os mais significativos momentos e os mais bobos, além de frases ditas pela vida afora ou então encostando o nariz à janela, escrevendo 'eu te amo', em homenagem a pessoa alguma, no vidro úmido. Também em horas como estas, percebiam que a língua havia sido abolida em favor de gestos e atos, altruístas e infelizes implicitamente. Eles haviam nascido apenas para ocupar lugar, espaço e tempo ou então viver tantos anos de vida. E isto era tudo." (Autobiografia de Hermínia Maria, p. 179)

* * *

"(...) de repente, sob a luz do fim do dia (entre violáceo e dourado) uma pessoa descobre no outono de Vitória que não existe passado, presente, futuro, outono, primavera. De repente, uma pessoa descobre que é eterna e que — portanto — aceitasse morrer sem constrangimento ou revoltas. De repente, uma pessoa aceita, de olhos fundos e secos. E esta será sempre a expressão que apresentará às exigências, acusações, crueldades e impasses de sua vida: o profundo espanto pelo fato de encontrar-se vivo para sempre." (A passagem do século, p. 58)


Bibliografias

GOMES, Deny. Morro do Moreno: Amylton de Almeida. Disponível em: http://www.morrodomoreno.com.br/materias/amylton-de-almeida-por-deny-gomes.html. Acesso em: 27 dez. 2019.

NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: depoimento de 90 cineastas. São Paulo, Editora 34, 2002.

SEIDEL, Mônica. Cena Vitória: Amylton de Almeida. Disponível em: http://cenavitoria.blogspot.com/p/e-por-falar-em-saudade.html. Acesso em: 27 dez. 2019.


José Francisco Rosa (Zé Pernambuco)

    José Francisco Rosa era filho de Francisco João da Rosa e Maria da Penha Rosa, o 4º entre os 9 filhos do casal, nasceu no dia 23 de janeiro de 1924, na localidade de Infância, interior de Afonso Cláudio, ES. Ficou órfão paterno muito cedo, foi necessário que ele desenvolvesse suas habilidades para o trabalho, pois precisava ajudar sua mãe na criação dos irmãos.

    Corajoso e determinado, em 1942, com 18 anos de idade se alistou no exército e se ofereceu para servir e combater o inimigo na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.
    Sendo aceito, pegou sua pequena mala com seus pertences e partiu rumo a Vila Velha, ES, para os treinamentos rígidos impostos pelos superiores, porém, com orgulho e com a certeza de estar fazendo a coisa certa para defender com dignidade sua pátria e ajudar a construir um Brasil melhor.
    Após anos de treinamentos e pronto para embarcar para Europa para fazer parte do grupo da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que se encontrava na Itália, não foi preciso, pois ao se preparar para a viagem, os países aliados ao Brasil, renderam os inimigos no Monte Castelo (Itália), no dia 21 de fevereiro de 1945, colocando assim, fim à terrível Segunda Guerra Mundial.
    Em 29 de setembro de 1948, José Pernambuco casou-se com Sebastiana Braga Lamas (filha de José Henrique Pedro e Aurora Braga Lamas), um relacionamento que durou 57 anos e gerou 11 filhos, muitos ainda vivos.
    Destinou 40 anos de sua vida à comunidade de São Vicente do Firme, ali, com muita dificuldade e perseverança, criou seus filhos e ajudou o próximo.
    Sua casa sempre tinha as portas abertas para quem solicitasse, estava sempre pronto para auxiliar aos necessitados. Por muitas vezes, à noite, se levantou da cama para socorrer as pessoas que ficavam pela estrada que liga Afonso Cláudio ao município de Brejetuba; com carros atolados no rio, carros quebrados (uma junta de boi ficava sempre nas proximidades do rio para fazer o trabalho de resgate), oferecendo a estes, descanso e comida, se desejassem.
    José Pernambuco ensinou que “devemos ajudar sempre sem olhar a quem”. Ensinou que “o trabalho dignifica o homem”. Ensinou também que “tudo posso naquele que me fortalece". Sua vida, além de ter sido para o trabalho e para a família, também foi destinada ao “Deus Vivo”, como ele se referia.
    No fatídico dia 15 de maio de 2005, sua esposa veio a falecer, a tristeza o dominou, sentimento que o levou a não querer mais viver. Deus atendeu o seu pedido e o levou no dia 21 de novembro de 2006, deixando seus filhos com saudades eternas. José Pernambuco se foi, mas deixou aos seus descendentes o seu bem maior, o conhecimento e a sabedoria acumulados em anos de experiência como grande líder.
    Em 2012, os moradores do município de Afonso Cláudio, Estado do Espírito Santo, solicitaram ao Poder Legislativo Municipal, por meio de abaixo assinado, por intermédio do Vereador Nilton Luciano de Oliveira, a denominação da Estrada Rural, que liga Afonso Cláudio, ES à Brejetuba, ES, de “José Francisco Rosa", vulgo José Pernambuco.
    José Pernambuco era filiado ao PDT desde 1987.
    Alguns dos filhos de Zé Pernambuco e Sebastiana foram: Almir Braga Rosa – Almir Pernambuco – (ex-deputado estadual e ex-vice-prefeito de Afonso Cláudio); José Braga Rosa (falecido em 2018); Ivone Braga Rosa, Ivaldo Braga Rosa, Rosangela Braga Rosa, Maria da Penha Rosa, Aurora Braga Rosa


Fonte: CÂMARA Municipal de Afonso Cláudio. 6 jun. 2012. Disponível em: http://www3.cmac.es.gov.br/Arquivo/Documents/MIG/IND562012.pdf. Acesso em: 4 jul. 2019.

domingo, 2 de junho de 2019

Coronel Bimbim no cinema



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O filme “Os Senhores da Terra”, primeiro longa-metragem do cineasta de Aimorés, Paulo Thiago, lançado em 1970, conta a história de um jagunço que é contratado para matar um coronel. Enquanto trama o crime, apaixona-se pela enteada de sua vítima e fica sem ação. O contratante se une então ao delegado da cidade e a um engenheiro, que representa o poder tecnocrático. O coronel morre, um novo poder se constitui e o jagunço foge com a amada para as serras.
"Na cidade de Degredo, dominada pela violência, o famoso jagunço Judas Iscariote é contratado para matar o Coronel Floro Bartolomeu, assassino do prefeito. Enquanto trama o crime, apaixona-se por Rosa Viviana, enteada de Floro. Medeiros Mendes, o coronel que contrata Judas, exige deste uma ação imediata, mas o amor por Rosa deixa o jagunço sem saber o que fazer. Os inimigos de Floro conspiram. O delegado da cidade se une a Medeiros Mendes e ao novo poder tecnocrático representado pela chegada do sobrinho de Floro, o engenheiro Hélio, que vem a Degredo estudar a construção de uma represa. Hélio termina por dominar a situação. Floro acaba morrendo e Judas foge com Rosa para as serras, perseguido pelo novo poder constituído". (Extraído do Guia de Filmes, 29)
O diretor Paulo Thiago teve como inspiração para o seu filme fatos reais ocorridos no interior de Minas, em Aimorés (o caso do Cel. Bimbim, acusado da morte do prefeito e que recebeu a polícia a bala, 1958) e em Alagoas (na luta entre coronéis e no tiroteio ocorrido na Câmara, 1957).Premiação: Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Karlovy-Vary, 1970 - Tchecoslováquia.







O filme está disponível na íntegra no YouTube: