sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

José Francisco Rosa (Zé Pernambuco)

    José Francisco Rosa era filho de Francisco João da Rosa e Maria da Penha Rosa, o 4º entre os 9 filhos do casal, nasceu no dia 23 de janeiro de 1924, na localidade de Infância, interior de Afonso Cláudio, ES. Ficou órfão paterno muito cedo, foi necessário que ele desenvolvesse suas habilidades para o trabalho, pois precisava ajudar sua mãe na criação dos irmãos.

    Corajoso e determinado, em 1942, com 18 anos de idade se alistou no exército e se ofereceu para servir e combater o inimigo na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.
    Sendo aceito, pegou sua pequena mala com seus pertences e partiu rumo a Vila Velha, ES, para os treinamentos rígidos impostos pelos superiores, porém, com orgulho e com a certeza de estar fazendo a coisa certa para defender com dignidade sua pátria e ajudar a construir um Brasil melhor.
    Após anos de treinamentos e pronto para embarcar para Europa para fazer parte do grupo da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que se encontrava na Itália, não foi preciso, pois ao se preparar para a viagem, os países aliados ao Brasil, renderam os inimigos no Monte Castelo (Itália), no dia 21 de fevereiro de 1945, colocando assim, fim à terrível Segunda Guerra Mundial.
    Em 29 de setembro de 1948, José Pernambuco casou-se com Sebastiana Braga Lamas (filha de José Henrique Pedro e Aurora Braga Lamas), um relacionamento que durou 57 anos e gerou 11 filhos, muitos ainda vivos.
    Destinou 40 anos de sua vida à comunidade de São Vicente do Firme, ali, com muita dificuldade e perseverança, criou seus filhos e ajudou o próximo.
    Sua casa sempre tinha as portas abertas para quem solicitasse, estava sempre pronto para auxiliar aos necessitados. Por muitas vezes, à noite, se levantou da cama para socorrer as pessoas que ficavam pela estrada que liga Afonso Cláudio ao município de Brejetuba; com carros atolados no rio, carros quebrados (uma junta de boi ficava sempre nas proximidades do rio para fazer o trabalho de resgate), oferecendo a estes, descanso e comida, se desejassem.
    José Pernambuco ensinou que “devemos ajudar sempre sem olhar a quem”. Ensinou que “o trabalho dignifica o homem”. Ensinou também que “tudo posso naquele que me fortalece". Sua vida, além de ter sido para o trabalho e para a família, também foi destinada ao “Deus Vivo”, como ele se referia.
    No fatídico dia 15 de maio de 2005, sua esposa veio a falecer, a tristeza o dominou, sentimento que o levou a não querer mais viver. Deus atendeu o seu pedido e o levou no dia 21 de novembro de 2006, deixando seus filhos com saudades eternas. José Pernambuco se foi, mas deixou aos seus descendentes o seu bem maior, o conhecimento e a sabedoria acumulados em anos de experiência como grande líder.
    Em 2012, os moradores do município de Afonso Cláudio, Estado do Espírito Santo, solicitaram ao Poder Legislativo Municipal, por meio de abaixo assinado, por intermédio do Vereador Nilton Luciano de Oliveira, a denominação da Estrada Rural, que liga Afonso Cláudio, ES à Brejetuba, ES, de “José Francisco Rosa", vulgo José Pernambuco.
    José Pernambuco era filiado ao PDT desde 1987.
    Alguns dos filhos de Zé Pernambuco e Sebastiana foram: Almir Braga Rosa – Almir Pernambuco – (ex-deputado estadual e ex-vice-prefeito de Afonso Cláudio); José Braga Rosa (falecido em 2018); Ivone Braga Rosa, Ivaldo Braga Rosa, Rosangela Braga Rosa, Maria da Penha Rosa, Aurora Braga Rosa


Fonte: CÂMARA Municipal de Afonso Cláudio. 6 jun. 2012. Disponível em: http://www3.cmac.es.gov.br/Arquivo/Documents/MIG/IND562012.pdf. Acesso em: 4 jul. 2019.

domingo, 2 de junho de 2019

Coronel Bimbim no cinema



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O filme “Os Senhores da Terra”, primeiro longa-metragem do cineasta de Aimorés, Paulo Thiago, lançado em 1970, conta a história de um jagunço que é contratado para matar um coronel. Enquanto trama o crime, apaixona-se pela enteada de sua vítima e fica sem ação. O contratante se une então ao delegado da cidade e a um engenheiro, que representa o poder tecnocrático. O coronel morre, um novo poder se constitui e o jagunço foge com a amada para as serras.
"Na cidade de Degredo, dominada pela violência, o famoso jagunço Judas Iscariote é contratado para matar o Coronel Floro Bartolomeu, assassino do prefeito. Enquanto trama o crime, apaixona-se por Rosa Viviana, enteada de Floro. Medeiros Mendes, o coronel que contrata Judas, exige deste uma ação imediata, mas o amor por Rosa deixa o jagunço sem saber o que fazer. Os inimigos de Floro conspiram. O delegado da cidade se une a Medeiros Mendes e ao novo poder tecnocrático representado pela chegada do sobrinho de Floro, o engenheiro Hélio, que vem a Degredo estudar a construção de uma represa. Hélio termina por dominar a situação. Floro acaba morrendo e Judas foge com Rosa para as serras, perseguido pelo novo poder constituído". (Extraído do Guia de Filmes, 29)
O diretor Paulo Thiago teve como inspiração para o seu filme fatos reais ocorridos no interior de Minas, em Aimorés (o caso do Cel. Bimbim, acusado da morte do prefeito e que recebeu a polícia a bala, 1958) e em Alagoas (na luta entre coronéis e no tiroteio ocorrido na Câmara, 1957).Premiação: Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Karlovy-Vary, 1970 - Tchecoslováquia.







O filme está disponível na íntegra no YouTube:




sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Veterano José Rodrigues Fontes

Ex-combatente da 2ª Guerra Mundial, o 2º Ten. JOSÉ RODRIGUES FONTES, filho de Manuel Rodrigues Fontes e Argentina Francisca Fontes, nasceu na Fazenda Pouso Alegre, em Afonso Cláudio, Município do Estado do Espírito Santo, em 07 de junho de 1920.
Foi convocado ao Exército no dia 01 de dezembro de 1941 e serviu no Grupo Escola – I ( 1º RAPC(GE). Recebeu treinamento por alguns meses na Cidade do Rio de Janeiro e embarcou em navio rumo à Itália, no 2º Escalão como integrante do I/1º RAPC (Regimento de Artilharia Pesada Curta Rio de Janeiro). Após 15 dias de viagem, ele e seus companheiros chegaram em Nápoles, de onde se deslocaram até Livorno, acampando na região de Pisa.
Prestou serviço durante a Campanha da Itália de 06/10/1944 à 11/08/1945 e participou no Combate pela posse do Monte Castelo cuja batalha marcou a presença da FEB no conflito que durou 3 meses.
O 2º Tenente José Rodrigues Fontes, casado com Zilda de Abreu Fontes com a qual teve 6 filhos residiu no RJ durante 50 anos. Na cidade de Petrópolis (RJ), como integrante da Associação dos Ex-combatentes participou de eventos promovidos pelo 32º BIMz. A partir de 1º de julho de 2011 fixou residência na Cidade de Canela(RS).
Não nos esqueçamos dos nossos pracinhas, não deixemos se perder esse legado deixado pelos verdadeiros heróis de nossa nação, não nos esqueçamos dos feitos daquele dia 21 de fevereiro de 1945. Vamos rememorar atos heróicos como esse para evitar que nossa sociedade seja escrava de sua própria ignorância.
“… povo que não tem virtude acaba por ser escravo….”
Colaboradora: Deiza Maria Fontes de Almeida

(Fonte: http://www.portalfeb.com.br/veterano-jose-rodrigues-fontes/)

domingo, 9 de novembro de 2014

Publiquei, no começo de 2014, o livro NOTÍCIAS DE AFONSO CLÁUDIO - A história de Afonso Cláudio contada pelos jornais - 1881-1949

Este livro busca contar um pouco sobre a história de Afonso Cláudio, um município do interior do Estado do Espírito Santo, através das páginas dos jornais. Apresenta a visão de pessoas, em sua maioria, de fora do município, dentre elas: jornalistas, viajantes, imigrantes, políticos, profissionais das mais variadas áreas que passaram por Afonso Cláudio, como: juízes, advogados, promotores, empresários, e muitos outros que deixaram registrados o cotidiano das pessoas, os acontecimentos relevantes, a cultura, a política, a economia e os desafios deste pedaço de terra encravado nas montanhas capixabas.



Desejo uma boa leitura.

Comentários sobre o livro colhidos no Facebook:

Muito, muito bom!!! Você deveria levar o seu projeto para câmara dos vereadores, para o material ser aplicado em sala de aula. (Adriano Cardoso)

Excelente livro! Notícias de Afonso Cláudio te possibilita conhecer com detalhes a história de seus antigos familiares. Obrigado por sua excelente contribuição, Adilson Braga Fontes! (Ademilsom Marques de Oliveira)


A história contada por meio da notícia. Brilhante! (Marlon Turial Lamas)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Como era Vila Velha

A cidade de Vila Velha tinha ruas estreitas, arenosas. Não possuía calçamento, nem rede de esgoto, nem água encanada. A água era recolhida no chafariz da fonte de Inhoá, perto da igreja do Rosário.
Era de lancha ou de barco que se ia de Vitória a Vila Velha. O desembarque se dava no cais dos Padres. O cais ficava diante da entrada velha do convento da Penha. Nessa época nem sequer havia o bonde ligando Vila Velha a Paul. O bonde só começou a circular a partir de 1912.
Os moradores de Vila Velha habitavam casas simples e todos se conheciam. Os quintais eram divididos por ripas e possuíam árvores frutíferas. Quase não havia movimento na cidade. As noites eram silenciosas e calmas. Somente em ocasiões especiais, como nas festas de Nossa Senhora da Penha, e nas célebres lapinhas, havia agitação nas ruas.
Sem energia elétrica, a iluminação noturna era feita com lampiões a querosene. A luz dos lampiões públicos mal iluminava o espaço em volta dos postes.
A praça, em frente à igreja do Rosário, ia até as areias da Prainha. As areias estavam, quase sempre, cobertas de algas verdes. Quem por ali passasse ficava com as canelas verdes. Muitos historiadores dizem que essa é a origem da expressão canelas verdes, usada para designar os moradores de Vila Velha.
Atrás da igreja do Rosário ficava o velho cemitério da cidade. Para se ir à Praia da Costa, que era desabitada, atravessava-se o rio da Costa, sobre pranchões de madeira. Com a urbanização, este pequeno rio foi canalizado. Para se subir ao convento da Penha, usava-se a ladeira de pedra, porque não havia a estrada de rodagem.
Foi lentamente que Vila Velha mudou. As primeiras grandes mudanças ocorreram com a chegada da energia elétrica e dos bondes elétricos.


Fonte: Vila Velha: Nosso Município - Noções Históricas e Geográficas
Autores: Léa Brígida Rocha de Alvarenga Rosa/ Luiz Guilherme Santos Neves/ Renato José Costa Pacheco


Fotos: Instituto Jones Santos Neves.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Afonso Cláudio se despede de Zuleika Haddad Fafá

No dia 29 de novembro de 2011, Afonso Cláudio se despediu de Maria Zuleika Haddad Fafá, 87 anos. Ela faleceu em decorrência de problemas cardíacos no hospital Metropolitano, em Vitória, onde estava internada desde o dia 14 de novembro devido a complicações. Nem o dia chuvoso impediu que centenas de pessoas acompanhassem o cortejo até o cemitério, prestando a última homenagem àquela que foi professora para muitos da comunidade.
Nascida em Afonso Cláudio, filha de José Jorge Haddad e Isaura de Barros Haddad, ela foi casada durante 67 anos com o ex-prefeito Sebastião Fafá, com quem teve seis filhos. Zuleika iniciou sua vida profissional como professora no Instituto Nossa Senhora de Lourdes, época em que reiniciou seus estudos, fazendo parte da primeira turma do Normal, como era conhecido na época o curso para habilitação de professores. Estava então com 36 anos.
Zuleika especializou-se na disciplina de história, matéria que lecionou por diversos anos no Ginásio Estadual e Escola Normal Afonso Cláudio, atual EEEFM Afonso Cláudio, onde também exerceu o cargo de diretora, até sua aposentadoria. Após, foi secretária Municipal de Educação, presidente do Conselho Tutelar e membro do Conselho da Casa de Cultura.
Foi primeira-dama do Município por duas vezes, ocasião em que desenvolveu inúmeros trabalhos sociais, destacando-se a participação na fundação da Casa do Menino, no bairro São Vicente, e a realização da festa de Natal para famílias carentes do Município, projeto pelo qual mantinha um carinho especial. No último Natal por ela organizado, conseguiu realizar seu grande sonho: doar a cada família uma cesta básica e brinquedos.
Sempre manteve interesse pela história do município de Afonso Cláudio. Assim, realizou inúmeras pesquisas e as documentou, colocando-as sempre à disposição dos interessados e alunos para a realização de trabalhos escolares. Em 1999 integrou a comissão de festas do centenário da Paróquia de São Sebastião de Afonso Cláudio, onde ficou responsável pela pesquisa, que deu origem ao livro “Vivenciar as Lembranças é Viver Sempre Mais”.

Fonte: Folha da Terra -2/12/11 (http://folhadaterra.com.br)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Viagem de Saint-Hillaire de Guarapari a Vila Velha



Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire (1779-1853), foi um botânico, naturalista e viajante francês. Viajou alguns anos pelo Brasil, tendo escrito importantes livros sobre os costumes e paisagens brasileiros do século XIX. O francês veio para o Brasil em 1816, onde permaneceu até 1822. Segundo ele e as autoridades ministeriais que o enviaram, os objetivos maiores de sua viagem seriam o bem-estar da humanidade e a glória nacional. Mas o fato é que Saint-Hialire, por meio de suas andanças pelo Brasil, nos legou riquíssimos conhecimentos sobre nossa biodiversidade, geografia, cultura. O texto abaixo é baseado no relato de suas andanças pelo Espírito Santo.

“... Deixando Guarapari, atravessei o rio... Tão logo me vi do outro lado do rio, cruzei a planície que já havia avistado quando ainda na vila. Mostra ela uma superfície arenosa e apresenta uma vegetação,, que eu havia observado, semelhante à das várias restingas que eu percorrera até então. Do outro lado dessa planície entrei numa floresta e, daí a pouco, cheguei a Perocão, lugar que tirou seu nome de uma ribeira cujas águas correm na vizinhança. A casa onde fiz parada [...] foi construída ao cimo de pequena montanha que domina uma enseada bastante larga de onde também se avista o alto mar...
A pé da colina vi o vale que rega o Perocão; florestas imensas se estendem do lado oeste e, à distância se percebem as altas montanhas...
Depois de haver deixado meu hospedeiro, atravessei o Perocão, que se lança pouco abaixo no oceano. A cerca de ¼ de légua dessa ribeira, encontrei outra igualmente pequena, a de Una (ribeira negra) junto a qual se acham cabanas muito mal conservadas...
Da mesma forma que o Rio Perocão, a Ribeira de Una se transpõe por uma ponte. Mais longe, atravessei terrenos arenosos, nos quais a vegetação é a das restingas; rodei os pântanos e afinal me vi de novo às margens do mar, da qual me havia distanciado por certo tempo.”
Pelo relato de Saint-Hillaire, na ocasião Guarapari não passava de uma pequena Vila, com suas casas concentradas no que hoje é o centro. Para cruzar o rio (enseada) na saída da cidade em direção a Vila Velha era preciso usar canoas, ainda não havia ponte.
De Guarapari, passando pela Ponta da Fruta e chegando a “Sitio de Santinhos” “vê-se a Baía do Espírito Santo.”
“Pouco mais ou menos a meio caminho, encontrei a Ribeira do Jecú, perto da qual estão espalhadas algumas choupanas. Passa-se sobre esse pequeno rio por uma ponte de madeira, cuja entrada é fechada por uma grande porta, ao passar a qual, é exigido tributo.”
O viajante se refere ao Rio Jucu, como Jecú, o que em nota é corrigido posteriormente.
Uma observação interessante é a cobrança de pedágio para atravessar a ponte. Não mudou muita coisa, hoje o pedágio continua, só que em outra ponte.
Naquela época ainda se usava a estrada velha, que passava dentro da Barra do Jucu, que margeando o mar saia em Coqueiral.
"O Jecú se lança no oceano, pouco abaixo da ponte, mas sua desembocadura tem pouca profundidade... Esta circunstância havia decidido os jesuítas, possuidores de três fazendas situadas à margem do Jecu, a cavarem um canal que, comunicando a ribeira à Baía do Espírito Santo, pusesse os gêneros alimentícios ao abrigo dos riscos que corriam ao ser transportados em canoas, por mar.”
Saint-Hillaire observa que os jesuítas possuíam fazendas às margens do Rio Jucu e que sua foz era pouco profunda para uso de embarcações, o que mobilizou os religiosos a construírem um canal que ligasse o rio ao mercado consumidor, Vitória. O canal em questão é o Marinho, que existe até os dias atuais, extremamente poluído e entregue ao descaso das autoridades e das populações que habitam o seu entorno.
O canal, junto com outros dois em Minas, eram os únicos canais construídos até então no Brasil. Em nota o editor diz que os canais mineiros “nunca serviu para nada ou estão entulhados”, sendo o do Espírito Santo o único que foi usado e que ainda existe.
“Para além do Jecu, entrei num bosque e depois cheguei a vasto campo, onde se poderia criar muito gado. O horizonte é limitado, a oeste por outeiros, que sem dúvida fazem parte de cadeia marítima; num plano menos distante vêem-se montanhas, entre as quais é possível distinguir uma de forma cônica, que tem o cume coroado pelo famoso Convento de Nossa Senhora da Penha...”
Depois de deixar o Jucu, Saint-Hillaire tem uma visão panorâmica da região que hoje é composta por vários bairros de Vila Velha. Apesar de estar em solo canela-verde e de ter avistado o que possivelmente já era de seu conhecimento, o Convento da Penha, ele toma outro caminho. Segue pelo o que seria hoje a Darly Santos e chega as margens da Bahia de Vitória, em Paul ou São Torquato, neste lugar toma uma canoa e desembarca em Vitória, onde permanece por alguns dias antes de seguir para seu destino, o norte do estado.
Durante sua caminhada da foz do Jucu até tomar a embarcação para Vitória, o francês comenta que o caminho era pouquíssimo usado e que a certo ponto achou que estivesse perdido. Este comentário mostra que a região da atual Rodovia Lindemberg era pouco habitada. As pessoas se concentravam no entorno da Bahia de Vitória, fato que pode ser facilmente notado pelas muitas construções antigas encontradas em Paul, Argolas e São Torquato, e que são raras ou inexistentes em Cobilândia e outras bairros mais distantes.
Ao retornar de sua incursão pelo norte capixaba, Santi-Hillaire manifestou o desejo de conhecer Vila Velha. Segue seu relato:
Saindo de Vitória “tomamos nossa canoa e nos dirigimos para a entrada da baía. Após haver contornado as montanhas que a circundam do lado sul, chegamos a um ancoradouro dominado pela montanha da Penha e no fundo do qual se situa a cativante Aldeia de Vila Velha, onde desembarcamos.”
Pelo que o botânico viu, Vila Velha não passava de um aldeamento de pessoas.
“Como já disse, Vila Velha foi o primeiro estabelecimento que os portugueses fundaram na província e se chamou primitivamente Vila do Espírito Santo.”
Saint-Hillaire apresenta como principal motivo para a retirada dos primeiros colonos de Vila Velha para Vitória o que usualmente se aprende nos livros de história, os insistentes ataques dos índios. No entanto ele enumera outras razões para o fracasso da fixação em território canela-verde, e fala da condição do lugar, na ocasião de sua visita:
“Outras razões contribuíram ainda para impedir que a Vila do Espírito Santo, ou Vila Velha, adquirisse alguma importância: as águas são ali de má qualidade; o ancoradouro, o beira do qual a vila foi construída, é raso e as embarcações não podem navegar nele; por último as terras da vizinhança são arenosas por demais para ser cultivadas... Esta pretensa vila é apenas um aldeamento, formado quase exclusivamente de cabanas semi-arruinadas. Embora, vizinhas das montanhas, essas cabanas são construídas num terreno plano e chegam só a cerca de quarenta.”
“Não podendo usar suas terras, os habitantes de Vila Velha, vivem apenas da pesca; são muito pobres e seu número diminui dias a dia...” O autor termina o parágrafo citando que a Paróquia de Vila Velha era composta por cerca de apenas 700 a 800 adultos."
Após vislumbrar e diminuta e pobre Vila Velha, o viajante sobe o Convento da Penha, objetivo de sua visita à vila. Segue a descrição:
“Para chegar à igreja, passa-se primeiro por um arco e galga-se um caminho ladeado por dois muros, calçado com pedras grandes e chatas e sombreados por copadas árvores. Na extremidade deste caminho, exatamente embaixo do rochedo, encontra-se uma plataforma sobre a qual se ergueu uma construção estreita, baixa e comprida, dividida em pequenos aposentos destinados aos peregrinos que a devoção atrai para a montanha. Desta plataforma se sobe uma escada estreita cortada no rochedo e, alcançando o convento, descortina-se uma vista de imensa extensão.”
O botânico disse ter ficado “extasiado com a vista”, que na época eram o lindo mar da Praia da Costa, a planície arenosa de Vila Velha, as montanhas, o Ribeirão da Costa (hoje escoadouro de esgoto da cidade) e as ilhas da Bahia de Vitória, que hoje podem ser contadas nos dedos de uma mão e com sorte não sobram dedos.
Ele ainda cita o Governador do Rio, Salvador Correia de Sá, que por volta de 1637, esteve no convento e patrocinou sua ampliação e manutenção, com tributos que vinham de “Goitacás” (Campos), onde possuía terras e onde também os habitantes eram fieis devotos de Nossa Senhora da Penha, enviando oferendas a ela.
Ele cita uma tradição na festa da Penha que hoje não existe e nem poderia:
“Pouco antes da festa da Padroeira, os frades fazem peditórios nas imediações, no dia da festa, inúmeros peregrinos sobem a montanha e os religiosos lhes oferecem uma refeição custeada pelas esmolas recebidas. Junto ao convento há uma grande sala destinada a esse banquete público.”
Depois da visita ao Convento da Penha Saint-Hillaire parte para o Rio de Janeiro.
Ao ler seus relatos o que me chamou a atenção foi a condição da maior cidade do Estado do Espírito Santos há 200 anos. Sua população estava em queda e as pessoas viviam na miséria, muito diferente do que se vê hoje, desenvolvimento e prosperidade, mas sem fechar os olhos para as desigualdades e crescente número de bairros que nascem sem a mínima infra-estrutura.


Por Adilson Braga Fontes


Fonte:

SAINT-HILLAIRE. Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974. p. 35-38, 112-115.